Os bastões deixados por peregrinos depois de chegar a Santiago de Compostela estão a ganhar uma segunda vida. Em Navarrete, na Rioja, outros caminhantes podem recebê-los gratuitamente e continuar com eles a sua própria peregrinação pelo Caminho Francês.
Há objetos que, depois de centenas de quilómetros, deixam de ser simples objetos.
Um bastão de caminhada pode carregar chuva, cansaço, conversas, subidas difíceis, noites em albergues e, finalmente, a chegada a Santiago.
Foi precisamente dessa ideia que nasceu “Andanzas de un Bordón. La historia continúa”, uma iniciativa da Camino Francés Federación que permite recuperar os bastões deixados pelos peregrinos no final da viagem e colocá-los novamente ao serviço de quem ainda está a começar. EFE Noticias
De Santiago para Navarrete
Quando um peregrino termina o Caminho, transportar o bastão de volta para casa nem sempre é fácil, sobretudo para quem regressa de avião.
Por isso, os caminheiros que quiserem podem deixar o seu bastão na zona de depósito do Mosteiro de San Martín Pinario, no centro de Santiago de Compostela.
Depois, a Correos encarrega-se de o transportar novamente para diferentes pontos do Caminho Francês.
Na Rioja, esses bastões chegam ao Albergue Municipal de Peregrinos de Navarrete, onde ficam disponíveis para outros peregrinos utilizarem gratuitamente nas primeiras etapas da rota. Europa Press

Um gesto simples com muito significado
A iniciativa não consiste apenas em reutilizar material.
Cada peregrino pode deixar junto ao bastão uma pequena mensagem destinada à pessoa que o receberá depois.
Pode ser um conselho.
Uma frase de incentivo.
Uma recordação.
Ou simplesmente um “Bom Caminho”.
Desta forma, duas pessoas que provavelmente nunca se conhecerão ficam ligadas pela mesma peça de equipamento e pela mesma experiência de peregrinação. Europa Press
Um bastão com duas histórias
Para quem começa o Caminho, receber um desses bastões significa muito mais do que poupar dinheiro.
Significa continuar uma história que já começou noutras mãos.
Aquele bastão talvez já tenha passado por Burgos, León, O Cebreiro, Portomarín ou Palas de Rei.
Talvez tenha chegado até à Praça do Obradoiro depois de semanas de caminhada.
E agora regressa ao início para voltar a percorrer o Caminho.
É uma imagem simples, mas profundamente jacobeia: o que termina para um peregrino pode começar para outro.
Sustentabilidade e espírito peregrino
O projeto tem também uma clara dimensão ambiental.
Reutilizar bastões que continuam em boas condições evita desperdício e reduz a necessidade de comprar novo material.
Mas o mais interessante é que a sustentabilidade aparece aqui ligada diretamente a valores muito próprios do Caminho de Santiago.
Partilhar.
Ajudar.
Reutilizar.
Dar continuidade.
E pensar no peregrino que vem depois.
A iniciativa procura precisamente unir quem já terminou o percurso com quem ainda está a começá-lo. diariodesantiago.es
Navarrete como ponto de passagem e reencontro
Navarrete é uma das localidades emblemáticas do Caminho Francês na Rioja.
Milhares de peregrinos passam todos os anos por esta vila no caminho para Santiago.
Agora, além de ser lugar de descanso e acolhimento, torna-se também um pequeno ponto de reencontro entre histórias.
Um peregrino pode chegar sem bastão.
Outro pode ter deixado o seu em Santiago semanas antes.
E, sem nunca se conhecerem, ambos acabam ligados pelo mesmo objeto.

Quando o Caminho continua depois de Santiago
Normalmente pensamos em Santiago de Compostela como o final.
Mas esta iniciativa mostra exatamente o contrário.
Algumas histórias continuam.
Os bastões regressam.
As mensagens viajam.
E novos peregrinos seguem os passos de quem já chegou.
Talvez um desses bastões volte um dia novamente a Santiago.
Talvez mude de mãos mais uma vez.
Talvez acumule três, quatro ou cinco Caminhos.
É impossível saber.
Mas essa é precisamente a beleza da ideia.
Porque no Caminho de Santiago nem tudo termina quando se chega à Catedral.
Às vezes, o verdadeiro destino de um objeto é continuar a caminhar.
















