O Caminho da Geira e dos Arrieiros está a ganhar um protagonismo inesperado entre os peregrinos que partem de Braga rumo a Santiago de Compostela. Dos 1.051 caminhantes que iniciaram a peregrinação na cidade portuguesa em 2026, 631 escolheram esta rota histórica, cerca de 60% do total.
Durante muitos anos, falar de Caminho Português significava pensar quase automaticamente no itinerário Central ou, mais recentemente, na variante da Costa. Mas a realidade jacobeia portuguesa está a tornar-se muito mais diversa.
Os últimos dados disponíveis mostram uma tendência especialmente interessante em Braga. Entre os peregrinos que começaram ali o seu Caminho durante 2026, a maioria não escolheu o percurso Português Central, mas sim o Caminho da Geira e dos Arrieiros.
Dos 1.051 peregrinos registados com partida em Braga, 631 optaram pela Geira, enquanto 380 seguiram pelo Caminho Português Central. Os restantes escolheram outros itinerários, como o Caminho Miñoto Ribeiro ou o Caminho de San Rosendo.
É uma diferença significativa para uma rota que continua a ser desconhecida para muitos peregrinos internacionais.

Uma alternativa que começa a deixar de ser alternativa
O Caminho da Geira e dos Arrieiros liga Braga a Santiago através de um território profundamente marcado pela história.
O percurso aproveita antigas vias de comunicação entre Portugal e a Galiza e atravessa zonas rurais onde o peregrino encontra uma realidade bastante diferente da que existe nas rotas jacobeias mais frequentadas.
Aqui existem menos multidões, longos troços de natureza, pequenas localidades e uma relação muito próxima com o território.
Essa combinação parece estar a conquistar cada vez mais peregrinos que procuram uma experiência diferente.
O facto de seis em cada dez pessoas que começam atualmente o Caminho em Braga escolherem esta rota demonstra que já não estamos perante uma simples curiosidade jacobeia.

Braga ganha importância como ponto de partida
Braga tem todos os elementos necessários para se consolidar como uma das grandes portas portuguesas para Santiago.
A cidade possui um enorme património religioso, uma forte identidade histórica e uma localização privilegiada para quem pretende iniciar uma peregrinação no norte de Portugal.
Durante décadas, Porto e Valença concentraram grande parte da atenção internacional relacionada com o Caminho Português. No entanto, o crescimento de outras rotas está a ampliar o mapa de partidas.
Braga começa assim a ganhar espaço entre os peregrinos que procuram mais quilómetros, mais património e uma experiência menos previsível.
631 peregrinos escolheram a Geira
Os números ajudam a compreender o fenómeno.
Em 2026, 1.051 peregrinos partiram de Braga em direção a Santiago.
Destes, 631 seguiram pelo Caminho da Geira e dos Arrieiros, o equivalente a aproximadamente 60%.
Outros 380 optaram pelo Caminho Português Central, cerca de 36%, enquanto aproximadamente 40 escolheram o Miñoto Ribeiro ou o caminho relacionado com San Rosendo.
É especialmente significativo que uma rota ainda relativamente pouco conhecida internacionalmente consiga superar o tradicional Caminho Central entre aqueles que partem da cidade.

Um Caminho entre Portugal e a Galiza interior
Depois de deixar Braga, a Geira leva o peregrino através de territórios onde a ligação histórica entre Portugal e a Galiza se torna muito evidente.
O itinerário cruza paisagens naturais, antigas vias, aldeias e áreas do interior antes de continuar por território galego em direção a Santiago.
Na Galiza, o percurso passa por zonas como A Estrada e Forcarei, afastando-se dos grandes corredores jacobeus e oferecendo uma imagem diferente do Caminho.
Para muitos peregrinos, precisamente essa sensação de descoberta é uma das suas maiores atrações.
Não se trata apenas de chegar a Santiago.
Trata-se também de sentir que ainda existem caminhos onde cada etapa conserva algo inesperado.
Menos peregrinos, mas uma experiência mais íntima
O crescimento não significa que a Geira tenha atualmente os níveis de utilização do Caminho Francês ou do Português da Costa.
Está muito longe disso.
E talvez essa seja precisamente uma das razões pelas quais começa a despertar interesse.
Há peregrinos que procuram cada vez mais rotas onde seja possível caminhar durante horas sem grandes grupos, conversar com habitantes locais e descobrir pequenas localidades que ainda não vivem exclusivamente em função do Caminho.
É uma forma diferente de peregrinar e uma procura que começa a aparecer cada vez mais no universo jacobeu.

O desafio será crescer sem perder a identidade
O aumento do número de caminhantes traz também novos desafios.
Uma rota precisa de sinalização clara, alojamentos, pontos de água, informação atualizada e serviços mínimos que permitam ao peregrino caminhar com segurança.
Mas o crescimento deve ser equilibrado.
O grande valor de itinerários como a Geira está precisamente na sua autenticidade, no silêncio e na relação próxima com o território.
Transformá-los numa cópia das rotas mais movimentadas seria perder aquilo que os torna especiais.
O desafio para os próximos anos será melhorar os serviços sem destruir essa identidade.
O Caminho Português é cada vez mais diverso
A tendência de Braga confirma também algo que está a acontecer em todo o universo do Caminho Português.
Já não existe apenas uma rota.
Existe o Caminho Central.
O Caminho da Costa.
O Caminho da Geira e dos Arrieiros.
O Miñoto Ribeiro.
O Caminho de Torres.
E diferentes itinerários históricos que continuam a ser recuperados e divulgados.
Para o peregrino, isto significa mais possibilidades de escolher uma experiência adaptada ao que procura.
Uma oportunidade para descobrir outro Caminho
Quem parte de Braga pode hoje decidir entre uma opção mais conhecida ou uma rota que continua a conservar uma personalidade muito própria.
E cada vez mais pessoas estão a escolher a segunda.
Os números de 2026 mostram que o Caminho da Geira e dos Arrieiros está a deixar de ser uma rota secundária para se transformar numa alternativa com peso próprio.
Ainda não tem grandes multidões.
Ainda não aparece em todas as listas dos Caminhos mais populares.
Mas talvez seja precisamente agora o melhor momento para o descobrir.
Porque algumas das rotas mais interessantes do Caminho de Santiago são aquelas que começam a crescer antes de toda a gente falar delas.
















