Enquanto milhares de peregrinos percorrem todos os anos os diferentes Caminhos de Santiago, uma rota muito menos conhecida começa a despertar interesse entre quem procura silêncio, natureza e uma experiência espiritual mais solitária. Chama-se Via Mariana Luso-Galaica, começa em Braga, atravessa o norte de Portugal e a Galiza e termina junto ao Atlântico, no Santuário da Virxe da Barca, em Muxía.
A comparação com o Caminho de Santiago é inevitável, embora sejam peregrinações diferentes. A Via Mariana não pretende substituir as rotas jacobeias nem é outro Caminho de Santiago. A sua identidade está ligada à tradição mariana e a uma sucessão de santuários que durante séculos fizeram parte da religiosidade popular de Portugal e da Galiza.
Mas há um elemento que começa a chamar especialmente a atenção: a tranquilidade.
Num momento em que determinados troços do Caminho de Santiago recebem milhares de peregrinos durante os meses de maior afluência, a Via Mariana oferece uma experiência radicalmente diferente.

Duas portuguesas e quinze dias a caminhar
A história de Helena dos Verdes e Rosa Cristina Oliveira mostra precisamente essa outra maneira de peregrinar.
As duas portuguesas partiram de Braga no dia 27 de julho e completaram a rota durante quinze dias consecutivos, distribuindo a caminhada por 17 etapas até chegarem ao Santuário da Barca, em Muxía.
Helena explicou ao jornal Atlántico que procurava uma experiência de meditação, contacto com a natureza e reflexão pessoal.
A viagem encontrou-a num momento importante da sua vida e a peregrinação acabou por se transformar em algo que ultrapassava o simples desafio físico.
Florestas, pequenas aldeias, antigos lugares de culto e longos períodos praticamente sem encontrar outros caminhantes fazem parte de uma rota ainda muito diferente da experiência existente nos pontos mais movimentados do Caminho Francês ou do Caminho Português.

Cerca de 300 peregrinos em 2026
Embora continue a ser uma rota minoritária quando comparada com o enorme fenómeno internacional do Caminho de Santiago, os primeiros números mostram que existe interesse.
Segundo os dados divulgados pelo Atlántico, cerca de 300 peregrinos obtiveram credenciais da Via Mariana durante 2026.
Aproximadamente 200 realizam o percurso integrados em grupos, muitas vezes dividindo as etapas por diferentes fins de semana em vez de completar toda a rota de uma só vez.
É uma dimensão completamente diferente da encontrada nas grandes rotas jacobeias.
E precisamente aí pode estar parte da sua atração.
Para alguns caminhantes, encontrar dezenas de peregrinos, partilhar albergues e criar amizades internacionais é uma das grandes riquezas do Caminho de Santiago.
Outros procuram exatamente o contrário: caminhar durante horas em silêncio.
A Via Mariana começa a encontrar o seu espaço entre estes últimos.
De Braga a Muxía através de santuários marianos
O Santuário do Sameiro apresenta a Via Mariana Luso-Galaica como um percurso de 382 quilómetros dividido em 18 etapas, ligando Sameiro, em Braga, ao Santuário de Muxía.
Ao longo do itinerário cruzam-se fé, património, natureza, tradições e histórias locais.
O percurso liga vários lugares de devoção mariana existentes no norte de Portugal e na Galiza, criando um corredor espiritual transfronteiriço entre os dois territórios.
A chegada a Muxía acrescenta ainda uma ligação inevitável ao universo jacobeu.
A localidade galega é também um dos grandes destinos associados à continuação do Caminho depois de Santiago de Compostela, juntamente com Fisterra.
Por isso, em determinados pontos, os universos da peregrinação mariana e jacobeia acabam por se encontrar.

Uma rota que ainda enfrenta dificuldades
Ser menos conhecida também tem inconvenientes.
Helena dos Verdes alertou para um deles depois da sua experiência: não é aconselhável realizar determinados troços sem GPS.
A sinalização não se encontra nas mesmas condições em todo o percurso. Existem zonas onde a vegetação pode dificultar a identificação das indicações e pontos onde os peregrinos podem ter problemas para seguir corretamente a rota.
Os responsáveis pela promoção da Via Mariana procuram, por isso, uma maior implicação das administrações para manter os caminhos transitáveis e melhorar as infraestruturas.
É uma diferença importante relativamente às principais rotas do Caminho de Santiago, onde existe uma estrutura turística e peregrina muito mais desenvolvida.
Quem decidir aventurar-se pela Via Mariana deve ter isso em consideração.
Portugal e Galiza unidos novamente por uma peregrinação
Existe, porém, algo especialmente interessante nesta rota.
Durante séculos, as fronteiras atuais não impediram que as populações do norte de Portugal e da Galiza partilhassem comércio, cultura, tradições e devoções religiosas.
A Via Mariana recupera parte dessa relação histórica através de uma peregrinação que atravessa os dois territórios a pé.
Braga e Muxía tornam-se assim os dois extremos de uma viagem em que o destino importa, mas também tudo aquilo que acontece entre ambos.
E talvez seja precisamente esse o seu maior atrativo.
Não competir com Santiago. Não tentar transformar-se num novo fenómeno de massas. Simplesmente oferecer outra possibilidade a quem ainda entende uma peregrinação como uma oportunidade para caminhar devagar, permanecer em silêncio e afastar-se durante alguns dias do ruído quotidiano.
Enquanto o Caminho de Santiago continua a receber peregrinos de todo o mundo, entre Portugal e a Galiza cresce discretamente outra rota.
Uma rota marcada não pela concha de vieira, mas pela tradição mariana.
E onde, pelo menos por enquanto, ainda é possível caminhar durante quilómetros praticamente sozinho.
















