O Caminho Português de Santiago voltou a colocar Portugal e a Galiza à mesma mesa. Nos dias 5 e 6 de novembro de 2026, Tui recebe mais de vinte especialistas internacionais para discutir o passado, o presente e os desafios de uma rota que já ultrapassou os 112 mil peregrinos este ano. A proximidade do Ano Santo de 2027 e a relação entre Tui e Valença tornam este encontro especialmente relevante para quem vive, trabalha ou caminha ao longo do itinerário.
O colóquio internacional “O Camiño Portugués: pasado, presente e futuro dunha singular ruta xacobea” começou na quinta-feira, 5 de novembro, no Espaço Sociocultural Camilo José Cela, em Tui. A iniciativa é promovida pela Xunta de Galicia, sob a coordenação do Comité Internacional de Especialistas do Caminho de Santiago, em colaboração com o município de Tui e outras instituições.
Na abertura participaram Xosé Merelles, diretor do Turismo da Galiza; Enrique Cabaleiro, presidente do município de Tui; José Manuel Carpinteira, presidente da Câmara Municipal de Valença; e Antonio Valín, bispo de Tui-Vigo. A presença das duas autarquias recorda uma realidade que os peregrinos conhecem bem: a fronteira política termina no rio Minho, mas a experiência do Caminho atravessa as duas margens.
Mais de 112 mil peregrinos no Caminho Português em 2026
Os dados divulgados na abertura do encontro indicam que mais de 112 mil peregrinos percorreram o Caminho Português desde o início de 2026, um aumento de cerca de 14% face ao período homólogo de 2025. Aproximadamente 75 mil, ou 67%, vieram do estrangeiro. São números que ajudam a explicar por que razão o crescimento da rota exige agora uma reflexão sobre a sua gestão.
Portugal surge entre as principais origens internacionais, a par dos Estados Unidos, Itália e Alemanha. Mas o interesse crescente não deve ser reduzido às estatísticas. Cada peregrino precisa de sinalização compreensível, informação fiável, alojamento, segurança e um percurso que respeite as comunidades por onde passa.
O programa distingue ainda os desafios do Caminho Português Central e da sua variante pela Costa. Quem está a escolher a rota pode consultar também o nosso artigo sobre as diferenças entre o Caminho Português pela Costa e pelo interior. A diversidade de itinerários é uma riqueza, desde que não comprometa a clareza da informação dirigida ao peregrino.
Valença e Tui, duas cidades com uma responsabilidade comum
A Ponte Internacional entre Valença e Tui é um dos lugares mais simbólicos desta peregrinação. Nela, os caminhantes atravessam o rio Minho, deixando Portugal e entrando na Galiza. Para muitos, o percurso começou no Porto, em Lisboa ou noutra localidade portuguesa; para outros, a viagem inicia-se precisamente na Eurocidade.
Esta passagem permite compreender o papel de uma cooperação que vai além da promoção turística. A sinalização, o acolhimento, os serviços e a conservação do património beneficiam de uma visão partilhada entre as duas margens. O município de Tui recorda que a cidade é uma das portas de entrada do Caminho Português na Galiza e um importante ponto de partida para Santiago.

É precisamente por isso que o encontro dedica espaço à certificação e aos diferentes modelos de gestão das rotas. A sessão de quinta-feira inclui a participação de Paulo Almeida Fernandes e de Ana Rita Dias, da Federação Portuguesa do Caminho de Santiago, entre outros intervenientes. O programa coloca em discussão os desafios de uma rede portuguesa descentralizada e a necessidade de padrões claros de reconhecimento.
Hospitalidade e comunidades: o debate de sexta-feira
Na sexta-feira, 6 de novembro, o programa prevê sessões dedicadas ao desenvolvimento sustentável das comunidades e à presença e acolhimento dos peregrinos. Investigadores ligados à Universidade do Minho, à Universidade de Santiago de Compostela e a outras instituições procuram analisar os efeitos económicos e sociais da peregrinação, incluindo o caso particular da Eurocidade Tui-Valença.
Uma questão central é saber como distribuir os benefícios do Caminho sem perder a sua identidade. O aumento da procura pode ajudar pequenos negócios, alojamentos e serviços locais, mas também obriga a discutir pressão sobre os espaços, conservação dos trilhos e equilíbrio com a vida quotidiana de quem reside nas localidades atravessadas.
A hospitalidade jacobeia merece atenção própria. Associações de Amigos do Caminho de Portugal e da Galiza participam num debate sobre as diferentes formas de acolher os caminhantes. Trata-se de uma dimensão que nem sempre aparece nas campanhas de promoção, embora seja uma das razões pelas quais muitos peregrinos regressam ou recomendam a experiência.

O património de Tui e os 800 anos da catedral
O debate sobre o futuro não esquece o passado. O programa dedica uma sessão aos 800 anos da consagração da Catedral de Santa Maria de Tui, uma das grandes referências patrimoniais do Caminho Português. A arquitetura, a história religiosa e a ligação aos peregrinos são abordadas por especialistas, entre os quais Marta Cendón Fernández e Carmen Manso Porto.
Para quem atravessa Tui a pé, a catedral não é apenas uma imagem turística. O centro histórico, a subida pelas ruas antigas e a passagem junto a igrejas e conventos ajudam a explicar como a peregrinação marcou a cidade ao longo dos séculos. Conhecer este contexto torna a etapa mais significativa e oferece razões para permanecer algum tempo no município.

RTV Caminho de Santiago já tinha anunciado a realização do encontro na notícia “Tui debate o futuro do Caminho Português”. Com o colóquio agora em curso, a atenção desloca-se da expectativa para os assuntos efetivamente colocados na agenda: crescimento, certificação, património, sustentabilidade e acolhimento.
O programa de sexta-feira inclui ainda uma reflexão sobre os limites da promoção do Caminho e uma conferência de encerramento a cargo de Francisco Singul. À hora desta publicação, as conclusões finais ainda não foram divulgadas, pelo que seria prematuro apresentar propostas definitivas ou acordos que não foram confirmados.
Para Portugal e para a Galiza, o verdadeiro desafio não é apenas receber mais peregrinos: é garantir que o Caminho Português continua a ser uma rota segura, bem cuidada e fiel à hospitalidade que o tornou especial.
Fontes: Concello de Tui, programa oficial do colóquio; Semanário Alto Minho, 5 de novembro de 2026; Diario de Santiago, 5 de novembro de 2026.
















