Marcelino, o peregrino que dizia que no Caminho “faltava cerveja, maconha e camisinha”, morre
Recuperamos uma entrevista de há dez anos que retrata a liberdade, a provocação e o sentido particular da vida de uma daquelas personagens que fizeram do Caminho a sua casa
O Caminho de Santiago é feito de milhões de passos, mas também de personagens que deixam uma marca impossível de apagar. Marcelino foi um deles.
Depois de tomar conhecimento da notícia de sua morte, hoje queremos recuperar no Caminho de Santiago RTV uma entrevista realizada há cerca de dez anos e preservada nos arquivos da Rádio Bom Caminho. Uma conversa que, ouvida hoje, ganha um significado completamente diferente.

E basta ler o título para entender quem foi Marcelino:
“O Caminho carece de cerveja, maconha e camisinha”.
Provocante, livre, direto e longe de qualquer discurso politicamente correto, Marcelino falava do Caminho como falava da vida: sem filtros.
Essa frase poderia chocar alguns e fazer rir outros, mas por trás dela apareceu um personagem que entendia o Caminho de uma perspectiva muito particular. Para ele, peregrinar não era apenas caminhar até Santiago, acumular quilómetros ou conseguir uma Compostela.
Estava vivendo.
Foi conhecer pessoas.
Foi compartilhar.
Estava se sentindo livre.
E, acima de tudo, foi escapar por algum tempo às regras que tantas vezes condicionam a nossa vida quotidiana.
Uma voz de outro Caminho

Passaram cerca de dez anos desde aquela entrevista e ouvi-la hoje é também viajar para outro momento do Caminho de Santiago.
Muito menos dependente de redes sociais, telemóveis e de fotografar todos os momentos. Um Caminho onde personagens como Marcelino pudessem tornar-se, quase sem querer, parte da paisagem humana da peregrinação.
Eles não precisavam de milhares de seguidores.
Os peregrinos os conheciam.
E isso foi o suficiente.
https://www.youtube.com/watch?v=Xjsh50VyZsg
Marcelino pertencia àquela linhagem de personagens difíceis de definir e que aparecem de vez em quando nas rotas jacobinas. Pessoas que podem não caber em nenhum guia turístico, mas que acabam fazendo parte das memórias que os caminhantes levam para casa.
Você poderia concordar com ele ou pensar exatamente o contrário.
Mas dificilmente o deixou indiferente.
Uma entrevista que hoje vira lembrança
O arquivo sonoro tem algo que as fotografias nunca conseguirão.
A voz permanece.
É por isso que aquela conversa gravada há cerca de uma década tem hoje um valor especial. Marcelino fala novamente. A sua forma de se expressar, o seu humor e aquela forma particular de compreender o Caminho regressam.
E aquela frase destinada a virar manchete também retorna:
“O Caminho carece de cerveja, maconha e camisinha”.

Dez anos depois ainda pode provocar exatamente a mesma reação: surpresa, indignação ou um enorme sorriso.
Marcelino provavelmente teria adorado.
Porque alguns peregrinos deixam uma pedra na Cruz de Ferro.
Outros deixam uma fotografia em frente à Catedral.
E alguns personagens deixam histórias que continuam a circular muito depois de terminarem de caminhar.
Marcelino deixou alguns.
Hoje recuperamos um deles.
Bom caminho, Marcelino.















