Ou como deixar de se sentir um explorador espiritual e passar a discutir com uma bolha por 30 quilômetros
Existem dois tipos de pessoas neste mundo.
Aqueles que ainda não fizeram o Caminho de Santiago.
E quem ri toda vez que ouve frases como:
“Vou fazer o Caminho para me desconectar e me encontrar.”
Porque eles sabem perfeitamente o que vem a seguir.
Todos nós começamos da mesma forma.
Vemos vídeos espetaculares na internet.
Peregrinos sorrindo enquanto caminham por campos verdes.
Nascer do sol mágico.
Música inspiradora.
Abraços entusiasmados.
E pensamos:
"Esta será uma experiência espiritual maravilhosa."
O que ninguém conta é que a espiritualidade desaparece rapidamente quando você carrega uma mochila de doze quilos morro acima e uma bolha do tamanho de um kiwi.
É por isso que hoje vamos desmantelar as cinco grandes mentiras do Caminho.
1. “Vou trazer só o essencial”
A maior mentira já contada.
Você prepara a mochila com uma filosofia quase Zen.
Desta vez você será prático.
Somente o que é necessário.
Sem excessos.
Três horas depois você tem:
- Quatro camisetas.
- Três calças.
- Dois forros de lã.
- Uma capa de chuva.
- Um livro que você nunca lerá.
- Um kit de primeiros socorros preparado para uma expedição ao Himalaia.
- Dois carregadores.
- Uma bateria externa.
- Uma bateria para a bateria externa.
- E uma sacola cheia de coisas que você nem lembra de ter colocado dentro.
No primeiro dia você se sente forte.
No segundo em que você começa a ficar desconfiado.
Na terceira você está olhando para cada objeto se perguntando:
"Eu realmente preciso continuar carregando isso?"
Há peregrinos que abandonam coisas em abrigos.
Não porque sejam desapegados.
Porque entenderam que a sobrevivência é mais importante.
2. «Encontrarei paz e silêncio»
Sim.
Claro.
Claro.
Principalmente quando você dorme em um albergue com quarenta pessoas.
Às dez da noite tudo parece calmo.
Às dez e cinco alguém começa a roncar.
Às dez e sete você descobre que há outro.
Às onze horas aparece um terceiro que parece tentar dar partida em uma motocicleta com o nariz.
Às duas da manhã você se levanta para ir ao banheiro.
Ele volta às quatro.
Às quatro e cinco ele se levanta novamente.
E às cinco horas aparece o clássico peregrino e decide preparar a mochila com um saco plástico que parece estar embrulhando uma escavadeira.
Enquanto isso, outro procura meias com farol capaz de iluminar o aeroporto de Barajas.
A paz interior vem.
Mas geralmente depois do segundo café.
3. “Vou comer saudável”
Todos nós viemos com grandes planos.
Fruta.
Vegetal.
Vida saudável.
Dieta equilibrada.
Então você descobre os menus do peregrino.
E a teoria sai direto pela janela.
Você começa comendo omelete no café da manhã.
No meio da manhã cai um sanduíche.
Para comida, um cardápio completo.
À tarde uma cerveja.
Uma tapa para a cerveja.
Outra cerveja por cima.
E à noite um jantar tão farto que daria para alimentar uma família de quatro pessoas.
O incrível é que você continua perdendo peso.
Os cientistas deveriam estudar o Caminho.
Porque é o único lugar no mundo onde uma pessoa pode sobreviver com tortilhas, croquetes, bolo de Santiago e cerveja e ainda perder peso.

4. “Vou meditar enquanto caminho”
A imagem mental é linda.
Você andando devagar.
Ouvindo os pássaros.
Conectando-se com sua essência.
Refletindo sobre o sentido da vida.
A realidade geralmente é algo diferente.
Quilômetro um:
"Como tudo é lindo."
Quilômetro cinco:
"Estou conectado com a natureza."
Quilômetro dez:
"Quem colocou esta rampa aqui?"
Quilômetro quinze:
"Isso não pode continuar subindo."
Quilômetro vinte:
«Vou denunciar o inventor das montanhas.»
Quilômetro vinte e cinco:
«Falta muito até o próximo compasso?»
A reflexão espiritual existe.
Mas geralmente aparece logo após uma Coca-Cola gelada.
5. «Quando chegar a Santiago ficarei triste porque está acabando»
Mentira.
E os grandes.
Você chega animado.
Você tira a foto na Plaza del Obradoiro.
Você abraça seus colegas.
Você olha para a Catedral.
Você até derramou uma lágrima.
E você pensa:
"Foi uma das melhores experiências da minha vida."
Cinco minutos depois você pensa:
"Eu preciso de um banho."
Dez minutos depois:
"Eu preciso de uma cama."
Quinze minutos depois:
"Preciso de uma pizza tão grande que tenha seu próprio CEP."
E uma hora depois você já está dizendo:
«No próximo ano estarei de volta.»
Porque essa é a verdadeira magia do Caminho.
Durante semanas você reclama das bolhas.
Das encostas.
Da chuva
Do ronco.
Da mochila.
Mas alguns dias se passam.
Você olha as fotos.
Você se lembra das histórias.
Você se lembra das pessoas.
E você começa a pensar:
"Como isso foi maravilhoso."
Então você volta.
E você comete exatamente os mesmos erros novamente.
Como qualquer peregrino profissional que se preze.
Porque o Caminho tem uma capacidade extraordinária:
Faça você esquecer o sofrimento.
E que você só se lembre das risadas.
E essa é provavelmente a verdadeira razão pela qual milhões de pessoas continuam voltando ano após ano.















